Arquivo do mês: setembro 2008

Uma dose de Pedro

 

 

 

“Enquanto encaixotava as lembranças de mais um relacionamento fracassado, começou a pensar em tudo que a vida tinha lhe proporcionado. Sua mãe o abandonara aos dez anos, seu pai o abusara sexualmente aos quatorze, até a faculdade não teve sucesso com as mulheres e sim com os seus respectivos maridos. Ganhava pouco, trabalhava muito e bebia mais ainda. De todos os seus sonhos conseguiu realizar apenas um, talvez o mais importante, não tinha se tornado um homem como seu pai.”

 

– Pronto! Aqui estão as oitenta palavras que resumem a minha vida.

         Pedro resmungava baixinho enquanto relia a sua “autobiografia”. Fechou o caderno e bebeu (mais) um copo de rum. Olhou para a mesa ao lado e viu uma garota debruçada sobre um pedaço de papel escrevendo rápido e sem pausas, com a caneta em uma mão e um cigarro na outra.

         – Eu posso ser auto-suficiente! – Disse ela levantando rapidamente a cabeça e olhando para Pedro com uma cara irônica e um ar de “a maior descoberta feita nos últimos tempos”. Olhou fixo em seus olhos por dois segundos e baixou a cabeça lentamente enquanto tragava o cigarro. Pedro, assustado, e sem entender direito o que havia acontecido, perguntou meio sem jeito “o que?”.

         – Sim, au-to-su-fi-ci-en-te! E quer saber mais? Assexuada também! Afinal quem disse que uma mulher precisa de um homem ao seu lado e de sexo para ser feliz?

     Subitamente, balançou a cabeça num gesto de negação, pegou o pedaço de papel e enfiou em sua bolsa. Levantou-se, apagou o cigarro e caminhou em direção à porta.   

Pedro ficou impressionado com aquela garota, pensou nos seus cabelos ruivos, nos seus olhos arregalados e na maneira despreocupada e incrivelmente atraente como ela se sentava, se vestia e falava. Com toda a sua “experiência” com as mulheres concluiu: “Só pode ser uma sapatona que ninguém nunca pegou de jeito”.

Lembrou-se de Marina e das reclamações que ela fazia sobre o sexo sem graça e a ejaculação precoce. Pensou que também não era o cara certo para aquela desconhecida. Marina era o motivo daquela garrafa de rum vazia sobre a mesa.

– Gastei todo o meu dinheiro com aquelas malditas alianças e ela me diz que precisa de alguém mais seguro e que a faça se sentir mais mulher. Quer saber? Quem não agüentava mais aquela fresca era eu! Agora até que em fim eu posso peidar, arrotar, andar pela casa sem camisa, me jogar no sofá encher a cara e… e não ter Marina nos meus braços…

         Depois de mais algumas doses de rum, andava pela rua com a auto-estima já recuperada graças ao álcool. Percebeu que Marina era um nada em sua vida e pediu em uma esquina o quanto poderia ser feliz por dez reais. Atrás de um muro jorrou, em menos de cinco minutos, toda a felicidade contida dentro dele nos seios de uma desconhecida.

        

Uma Certa Garota

         

 

 

 

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